Abusos contra crianças crescem até 12 vezes na pandemia em São Paulo.

Written by on 10 de março de 2021

A pandemia de covid-19 escancarou os casos de agressões e abusos sexuais contra crianças. Impossibilitados de fechar as portas ou fazer o isolamento social, os conselhos tutelares de todas as regiões da cidade de São Paulo viram o número de denúncias de violência infantil crescer exponencialmente. De acordo com dados do Conselho Tutelar do Rio Pequeno e Raposo Tavares, na zona oeste da cidade, levantados a pedido da reportagem, em fevereiro desse ano, o número de denúncias foi 12 vezes maior do que no mesmo período do passado. Em 2020, foram registradas duas ocorrências, enquanto em fevereiro deste ano, esse número saltou para 24.

Isso significa dizer que houve um aumento de 1.100% em casos de maus-tratos e violência sexual contra crianças nessas regiões. Em janeiro, o número de casos foi 6,5 vezes superior ao mesmo período em 2020, o que representa um crescimento de 650%. “Hoje, os relatos surgem de todos os lados: hospitais, unidades básicas de saúde, disque denúncia. Antes, ficavam mais restritos aos munícipes”, diz Gledson Deziatto, conselheiro tutelar da região.

O isolamento social necessário em decorrência da pandemia trouxe, segundo Deziatto, o agressor para dentro de casa. “O pai que tinha um histórico de violência, de ser uma pessoa agressiva, trabalhava fora. Nos últimos meses, o agente violador fica mais em casa e, com isso, aumentam os casos de agressões”, afirma. Além disso, a crise econômica que se acentuou com a chegada do vírus fez com que muitos pais perdessem o emprego.

Muitos pais passaram a descontar as insatisfações e frustrações nos filhos. Passamos a atender mais casos de espancamento

“Nessas situações, muitos aumentaram o consumo de álcool e passaram a descontar as insatisfações e frustrações nos filhos. Com isso, passamos a atender mais casos de espancamento.” Segundo o conselheiro, soma-se a isso, o esgotamento das mães que perdem o apoio da família, dos parceiros, do governo e das políticas públicas. “A saúde física e mental não dá conta”, diz. No limite, o conselheiro relata que há casos de mães que entregam as crianças aos conselhos. “Há um enorme desespero. Nesses casos, precisamos dar também o apoio jurídico.”

Antes da pandemia do novo coronavírus, as escolas eram os principais locais onde um indício de maus tratos ou abuso sexual percebido. “Quando os casos chegavam até nós, a violência ainda não tinha ocorrido. Hoje, como a maior parte das crianças está afastada das escolas, quando ficamos sabemos, o abuso já aconteceu”, diz Deziatto. O advogado especialista em direitos da criança e do adolescente, Ariel de Castro Alves, explica que a prevenção é um importante trabalho realizado por profissionais de escolas e creches, quando verificam mudanças de comportamento, lesões corporais, falta de higiene e alimentação ou recebem relatos de estudantes.

Para advogada e especialista em políticas públicas da UFABC, Silvia Abud, além do abuso sexual, da violência e trabalho infantil, as crianças ficam expostas a fatores de risco como exploração sexual, gravidez na adolescência e insegurança alimentar. “A violência gera um impacto no desenvolvimento cognitivo, emocional e no aprendizado. Há um aumento no risco de desenvolver doenças mentais, cardíacas”, diz. “Com a evasão escolar, especialmente daqueles que são mais vulneráveis, há uma ampliação das desigualdades. Isso demandará do Estado a ampliação de serviços públicos de setores como saúde, educação, assistência social, trabalho e renda.”

Com a evasão escolar, há uma ampliação das desigualdades. Isso demandará do Estado a ampliação de serviços públicos de setores como saúde, educação

O conselho tutelar afirma que as escolas tinham um papel fundamental na identificação dos casos. “Os professores percebiam qualquer anormalidade e já nos comunicavam”, diz a conselheira.


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