Pãozinho e combustível devem ficar mais caros se dólar seguir em alta

A alta do dólar vem preocupando muita gente, principalmente quem está com viagem marcada para o exterior. Engana-se quem pensa que a variação da moeda norte-americana só afeta viajantes ou quem quer comprar produtos importados, celulares e eletrônicos vindos da China.

A valorização do dólar também reflete no preço de produtos que fazem parte do dia a dia do brasileiro. Entre eles, o pãozinho – boa parte do trigo utilizado na produção nacional vem de fora do país – e o combustível, que pode sofrer reajuste conforme a variação cambial.

Na última semana, a moeda norte-americana fechou a R$ 4,48 – com pico de R$ 4,51 ao longo da sexta-feira (28) – e registrou a maior valorização para o mês de fevereiro desde 2015.

Três fatores contribuem neste movimento: a disseminação do coronavírus para fora da China e o temor de uma recessão econômica global, além da insegurança sobre a aprovação das reformas administrativas e tributárias que tramitam no Congresso.

O aumento que deve chegar primeiro ao bolso do consumidor – caso a moeda norte-americana continue a subir – é o dos combustíveis, principalmente da gasolina e do diesel, segundo André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da FGV/Ibre (Fundação Getulio Vargas/Instituto Brasileiro de Economia).

As principais “vítimas” dessa alta serão os donos de veículos e as transportadoras, mas o reajuste também terá reflexo na vida de muita gente, já que os serviços de frete também são influenciados pela variação do dólar.

“Os grandes centros urbanos recebem alimentos e produtos de várias regiões do país, que são escoados, em sua maioria, via transporte rodoviário. Se a Petrobras resolver fazer uma revisão do preço do diesel para cima, por exemplo, o frete poderá ser reajustado e essa diferença passará para o preço final do produto”, explica Braz.

Outros produtos que podem sofrer reajuste por causa do dólar são as commodities agrícolas, em especial o trigo, já que o Brasil importa a maior parte do cereal utilizado para a produção nacional. Com a moeda norte-americana escalando para os R$ 4,50, a alta impactará diretamente na mesa do brasileiro.

A indústria de panificação deve ligar o sinal de alerta em breve, já que as padarias têm estoque de farinha de trigo – comprada antes da valorização do dólar – para apenas 15 dias, segundo Rui Gonçalves, vice-presidente do Sindipan-SP (Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria de São Paulo).

“Gradualmente, à medida que o dólar se mantém nesse novo patamar, esses produtos podem ficar mais caros”, diz o economista André Braz.

Em nota, a Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo) disse que os moinhos brasileiros têm estoque para cerca de três meses e “vislumbram um cenário sombrio a partir de maio de 2020”.

Não pela falta de trigo no mercado mundial, continuou a nota, mas pela necessidade de buscar abastecimento em outras fontes, como Estados Unidos e Rússia, já que a Argentina – principal fornecedor do Brasil – não terá trigo suficiente para o abastecimento do mercado interno brasileiro.

O país vizinho acelerou suas exportações da safra do grão colhida no final de 2019, movido pela abertura de novos mercados na Ásia e quebras de safra na Austrália e Rússia.

“O conjunto de fatores formado pelo câmbio, preços do trigo argentino, aumento de custos logísticos e imposto de importação projetam um cenário de fortes pressões sobre os preços da farinha de trigo no Brasil entre 15 e 20%”, concluiu a nota.

Outros grãos, como a soja e o milho também seriam afetados, já que suas cotações seguem bolsas internacionais. Isso pode encarecer o custo da criação de animais, como frango, suínos e gado bovino.

90.9 FM

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